O que eu chamo de “gestão social” poderia ser chamado simplesmente de “administração”. Mas infelizmente vejo necessidade de utilizar este tipo de diferenciação para poder marcar uma, digamos, (de)formação ideológica.

O problema

Há um problema na compreensão geral da administração, tanto da administração (prática) como da Administração (área do conhecimento). Administração é muito mais, mas muito mais mesmo do que tecnologia de gestão empresarial. Porém, as práticas discursivas na área são, compreensivelmente, reducionistas.

Uma esmagadora maioria está preocupada apenas com tecnologia de gestão empresarial (o que não é necessariamente ruim) e chama isto de Administração. Sim as tecnologias de gestão são uma parte, mas apenas uma parte de um todo, muito, muito, muito mais complexo.

Entenda. O que estou tratando aqui não se resume a diferenciar a natureza da organização ou do processo a ser administrado: Empresa Privada, Organização Pública, ONG etc Não é isto. Até porque o gerencialismo é uma realidade na Administração Pública.

O que quero evidenciar é que há uma excessiva concentração de interesse e debate em torno de apenas um aspecto da Administração: a tecnologias de gestão empresarial. Esta concentração é tão expressiva que assume, aos olhos não críticos, o significado de Administração. Assim como aquela substituição “denunciada” por Aktouf da Economia pela Crematística.

Os efeitos colaterais

Para quem se preocupa com uma Administração, para além da Tecnologia de Gestão, há um efeito colateral desta substituição muito desgastante. Qual é?! Estar a todo momento ressignificando* a Administração nas conversas. E aí, não só há o trabalho (às vezes muito complicado) de ressignificar a Administração, mas também uma série de conceitos e noções utilizados na área.

A coisa fica mais complicada se você analisar a natureza o conhecimento que alimenta as construções discursivas deste viés dominante na Administração. O pop-management, como O Monge e o Executivo, não é o pior. O mais grave talvez sejam as abordagens superficiais e às vezes distorcidas do conhecimento formal das Ciências Sociais e outras áreas do conhecimento. Assim, por exemplo, fala-se muito em burocracia mas poucos vão além do senso comum e das sínteses dos livros de Administração.

O excelente artigo de Nicolini (que explica historicamente situação atual dos Bacharelados em Administração no Brasil) apresenta o que eu acredito ser um componente muito importante das causas do problema. Ou seja, cursos fundados e ainda hoje estruturados com base em importação de tecnologia de gestão, distanciamento da pesquisa e educação bancária. Nada muito simples de discutir, principalmente em um post. Então, começo aqui e e torço para que a discussão possa se expandir por muitos posts e além.

O que de fato é administração

A administração é um conjunto de práticas imanente à vida do homem em sociedade. Lida com planejamento e organização de recursos, com provisionamento, com tomada de decisões para a vida. Em essência é prática política e, sendo assim, não deveria ser olhada e pensada apenas sob a ótica de tecnologia de gestão empresarial.

Por mais importantes que sejam (não podemos negar os méritos da tecnologia de gestão) as partes não podem ser vistas separadamente como o todo da Administração. Sob pena, como nos mostra Capra, de reduzirmos a complexidade da humanidade a leis gerais e generalizantes apropriadas da Física e da Biologia para explicar o comportamento social.

Eu acredito que, assim como eu, há mais gente incomodada com esta questão. Acredito também que há mais gente que gostaria de ver a Administração recebendo uma significação mais apropriada. E mais ainda, penso que há gente que gostaria de ver esta siginificação presente nas salas de aula dos cursos de Administração. Assim, ressignificando Administração para algo mais próximo do ser humano integral.

Será a Internet, atualmente festejada pelo “poder” das mídias sociais, o meio que permitirá uma ressignificação amplamente conhecida da administração? Isto é importante? Por quê?

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A imagem, interessantemente, vem de um post no Flickr by Jaume DÚrgell. Aparentemente um ativista e político profissional. Ainda não conheço nada das idéias do cidadão, mas o titulo do post me chamou a atenção: Recuperar las palabras, para luchar por los valores.

Nota

* a palavra ressignificação é utilizada neste texto com um sentido completamente intuitivo. Fruto das minhas leituras. Hoje, quando estava escrevendo o post ví que há um verbete na Wikipédia que liga “resiginificação” a Programação Neuro-Linguística. Definitivamente, não é disto que estou falando. Falo do resgate de um significado, mas não de uma forma instrumental. Não conheço, não sei direito o que é, mas não gosto do termo “Programação Neuro-Linguística”. É preconceito, admito. Coisa para avaliar posteriormente.

Ps. Enquanto escrevia este texto a todo instante me vinha à lembrança a obra Linguagem e Ideologia de Fiorin.

Update em 20 de agosto: Estou tendo trabalho com a apreensão do conceito de ressiginificação. No primeiro grafei como “resiginificação” e depois ví artigos (Educação e Sociologia) usando usando a grafia “ressiginificação”. O Aurélio aquí de casa não dá conta do problema. Estou vendo um jeito de instalar o Houaiss no Ubuntu e confirmar percepções.

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